
Uma festa de aniversário.
Aqui tem: Atualidades, idéias (doidas ou não), poesia, paixão, desejo, indignação, perplexidade, fé e muita fome de viver.


Eu não quero ter mais tempo
Não quero ter tido ou dito
Mais ou menos de nada
Não contabilizo momentos
Não coloco em uma despensa
Potes com sentimentos.
Minha vida não tem retrovisor
Para as lamentações
Desilusões e dor.
Às vezes, apenas repasso as ruas
Por onde fui feliz:
Por elas tenho apreço.
Sigo depois, sem mais,
Para um novo endereço.
Não coloco preço no meu sucesso,
Não peço milagres,
Minha fé melhor não é
Que a de ninguém,
Não sou quem diz
As maiores verdades
Ou guardo os piores segredos.
Não dou ouvidos
A todos que me chamam.
Tenho medo de ser esquecido,
Mas apenas pelos que me amam.

Em um quarto de hotel,
As coisas espalhadas.
O copo vazio
- Não meio cheio.
E eu tentando juntar-me.
Celular, ipod, laptop conectados
Eu não:
Umplugged do mundo,
Olho o céu escuro de São Paulo.
São nove horas no oitavo andar.
Ponho-me a perambular,
Ir, voltar e batucar nas teclas
O som das idéias tentando fugir.
Capturo algumas.
Outras realmente se perdem,
Como a de hoje, na sala de embarque.
Era linda,
Mas eu não registrei,
Não a sussurrei no gravador do celular
Não fiz nenhuma mísera anotação,
Sequer um garrancho
Em um pedaço amassado de papel.
E agora ela está irremediavelmente perdida
Como a luz no escuro desse céu.
Eu a perdi como se perdem
Todos os possíveis grandes amores:
Não disse que a queria,
O quanto era importante para mim,
Quanto significado carregava
Em suas poucas palavras,
Em sua efêmera história.
Definitivamente,
Meu coração odeia minha memória.

O ruim de ser uma pessoa inquieta
É sentir-se profundamente desconfortável
Com a própria zona de conforto.
É ser um navio sem âncora,
Sem porto.
É o eterno balançar das pernas,
Bambas por não saberem esperar.
É o respirar curto e apressado
No qual o ar nem bem é saboreado
Pelas árvores alveolares no peito.
É um pleito pelos momentos novos
Quando estes nem velhos ficaram ainda.
Quando, nem finda tarde,
Quero lua,
Quero sol,
Quero viver com uma pressa de escrever,
De cantar,
De dançar,
De correr,
De amar.
Uma pressa que não é minha,
E talvez por isso apresse-me em passá-la adiante.
Tenho esperança de que a idade
Vá mandando a ansiedade embora.
Mas ela já está chegando,
Sem hora, mas com rugas marcadas.
E eu continuo perdendo a razão
Para o medo de perder tempo.
A insanidade de ser feliz com todos
E triste consigo mesmo.

Acordei velho.
Ontem não era.
Trocaram-me, dormindo,
Por esse corpo enrugado
Que me olha do espelho,
Nu, sem pêlo.
Sinto as gengivas baterem
No mesmo ritmo do frio
A maltratar minhas juntas.
Arrasto os pés pelo chão gelado
Até perto da cama.
Visto um pijama de flanela
Enquanto vejo, pela janela,
O jovem que eu era
Desaparecendo no final da rua.
Com as mãos trêmulas,
Pego papel e caneta
E vou até a escrivaninha.
Debruço-me sobre a folha.
Ela espera-me como uma virgem,
Pálida.
Nada.
Estou impotente ante seus apelos.
Da minha cabeça
Não brotam mais palavras,
Apenas caem ralos fios de cabelo.

Vou embora.
Já estou atrasado para rir de tudo,
Jogar fora as fotos
Que ora tomam espaço sobre o criado-mudo.
Não faço a mínima questão de ocupar
Minhas memórias com suas máximas.
Tenho pás ao invés de mãos,
E um coração livre de arrependimentos.
E isso é tudo que preciso para enterrar nossos momentos
Nas covas de seu falso sorriso.
Dedicar-te-ei estas últimas linhas
Apenas para dizer que, de você,
A ausência é o maior presente.
Não há mais gestos cujos gastos justifiquem-se.
Nada sobrou: Nem pena, tampouco pedras,
Qualquer saudade,
Ou mesmo um pingo sequer de maldade.
Sei que não será fácil,
Mas aceite estas palavras minhas.
Elas são a verdade que falta
Entre as breves linhas do seu epitáfio.

Quando era criança,
Tinha tempo para ver o tempo passar
Era brincadeira o sol,
O sal,
O céu,
O mar.
O projeto que hoje a vida permeia
Era apenas um belo,
Singelo castelo nas brancas areias do Grumari.
O, hoje, cidadão,
Um guri de cabelos desgrenhados
Com balde e pá nas mãos,
Acompanhando o movimento ritmado
Dos ventos e das marés
Com os pés dentro d’água,
Sem mágoas cheias ou vazantes,
Passado em fotos nas cabeceiras,
Paredes, estantes.
As crianças não são
Simples seres humanos.
Vejo-as brincar intimamente
Com as belezas do mundo
E aquele instante
Parece durar eternamente.
Vejo meu reflexo
Naqueles olhos sempre atentos:
Os olhos das verdadeiras donas do tempo.
Em 7/4/2010, de Tamandaré - PE

Minha alma chora
Vejo o Rio de Janeiro
Esvaindo-se na água barrenta,
Nas lágrimas,
Nos gritos
Dos que não mais agüentam
A rotina de desenterrar casas
E enterrar pessoas.
Eu vejo as imagens na TV na distante segurança de um ensolarado dia de férias. Sinto-me terrivelmente culpado. Lembro do dia em que minha casa foi levemente invadida pela água. Na ocasião, nada se perdeu. Mesmo assim, era terrível a impotência de ver a água subindo. Escuto os locutores dos telejornais declararem ser a pior chuva dos últimos quarenta anos na cidade. Já presenciei algumas bem ruins também. Assisto as imagens das pessoas desesperadas e revoltadas. Revoltadas com os céus e com o governador, esse último por ter jogado a culpa das mortes nos próprios moradores das áreas de risco. Revoltante? Revoltante e injusto. A culpa não é só deles. As chuvas tendem a piorar, dadas as alterações climáticas provocadas por nós mesmos, no mundo inteiro. As enchentes também, pela maneira como emporcalhamos as cidades, entupindo os bueiros quando precisamos deles. Por isso me sinto culpado. Somos um bando de irresponsáveis cobrando responsabilidade. É triste contabilizarmos os mortos, mas não pensamos neles quando jogamos fora os sacos e garrafas plásticas sem nos importarmos para onde irão. Se forem formar uma ilha de sujeira no meio do oceano, aonde nunca iremos, tudo bem. O problema é quando resolvem nos acordar no meio da noite.

Passaram por mim
As priscas eras
E primaveris infernais outonos.
Ao abandono das folhas
Deixavam-me as caras companhias
Como os copos quebrados
Saudadeavam a cristaleira vazia,
De onde São Francisco
Tudo assistia.
Um olhar de barro
Sobre a poeira das ausências.
Os remédios sobre a cômoda
Dão-me a incômoda sensação
De estar trapaceando.
Ainda ando, trôpego,
Tropeçando nos degraus
Dos portais,
Os quais só notei
Depois dos setenta e muitos anos.
Ou mais.
Meu olhar embaçado
Tenta distinguir em fotos velhas
Os traços finos,
Idos da época em que o cristalino
Ainda não havia me traído.
Pergunto a Deus,
Aos anjos e santos
O que fiz para merecer isso.
O que fiz para viver tanto?
Não quero mais
Fazer parte da história.
Antes, jogava cartas.
Hoje apenas embaralho memórias.

A poesia é de quem lê (DF, 02/03/2010)
Já andei por becos,
Bocas, línguas e dedos;
Arranquei suspiros,
Gemidos,
Apelos;
Atraí olhares
De faces distintas;
Sorvi lágrimas servidas
Em meu já servido papel.
Entendi quem errou
Tentando me entender,
Pois eu mesmo já não consigo
Decifrar as linhas,
Outrora minhas,
Agora tão seqüestradas
Por outros sentidos.
É tarde:
Pouco importa o que eu queria dizer
De nada interessa no quê acredito.
A poesia só era minha
Enquanto não a havia escrito.


Fiz um blog só para histórias, pequenos textos, o "Textículos de Jó". Passem por lá também e deixem suas impressões. Será muito legal recebê-los na nova casa. Aguardo vocês!